Categorias
Opinião

O riso da hiena e a morte da alma

Há um fenômeno na biologia que sempre me fascinou: a hiena não ri por alegria. O som que ela emite — aquele grunhido agudo que mimetiza uma gargalhada humana — é, na verdade, um sinal de excitação nervosa diante da carniça ou da submissão ao bando. No jornalismo brasileiro, essa distinção biológica desapareceu.

O vídeo não é apenas um registro de “viés político”. É um documento clínico de uma patologia espiritual.

Nele, vemos a jornalista Daniela Lima, no UOL News, tratando um traumatismo craniano de um ex-presidente da República com a leveza de quem comenta uma torta que caiu no chão. “Dona Carla, quem caiu da cama?”, pergunta ela, com aquele meio-sorriso de quem partilha uma piada interna suja. O tom não é de noticiário; é de fofoca de comadres em volta da guilhotina.

Observe a cena com a frieza de um legista. A jornalista anuncia um ferimento na cabeça — algo que, em qualquer ser humano com um sistema nervoso moral intacto, evocaria no mínimo a gravidade protocolar da profissão. Mas não. Ela escolhe o escárnio.

A frase “caiu da cama” é calculada. Ela infantiliza a vítima. Ela reduz um acidente físico, que levou um idoso ao hospital, a uma trapalhada de desenho animado.

Mas o pior não é a frase. É o timing. É a confusão inicial da colega (“Como assim?”), que por um breve segundo ainda operava na realidade normal onde machucados doem, seguida pela adesão forçada ao deboche quando percebe que a ordem do dia é rir. “Caiu da cama virou notícia”, diz a outra, e o riso coletivo sela o pacto.

É o ritual de desumanização. Para essa classe falante, o inimigo político não tem corpo, não tem nervos, não sangra. Ele é apenas uma abstração maligna que merece o infortúnio. Se Jair Bolsonaro tivesse sido atropelado, eles debateriam a qualidade do para-choque.

O que vemos  é o que o professor Olavo de Carvalho apontava como uma impostura moral travestida de virtude.

Essa gente acorda, se olha no espelho e vê “defensores da democracia”, “humanistas”, “guerreiros do amor”. Mas, na prática, sua conduta viola a primeira lei da civilização: a piedade diante da fragilidade humana.

Eles não percebem a contradição? Não. Porque, na cabeça do revolucionário de redação, a moral é elástica. A compaixão é seletiva. Para os “nossos”, solidariedade irrestrita; para os “deles”, o deboche, o “se deu mal”, o riso estridente.

Isso não é jornalismo. Isso é pornografia moral. É o prazer sádico de ver o “monstro” sofrer, sem perceber que, ao rir da dor alheia, é você quem está se transformando no monstro.

A jornalista tenta consertar depois, gaguejando que “demorou a cair a ficha”. Mentira. A ficha não caiu; a máscara é que escorregou. A naturalidade do deboche inicial é a verdade; a justificativa posterior é o verniz social. No fim, o acidente de Bolsonaro passará. O hematoma vai sumir. Mas a mancha na alma de quem faz do jornalismo um picadeiro de vingancinhas pessoais, essa é indelével.

Eles acham que estão derrubando um gigante com essas piadas. Mal sabem que estão apenas dançando sobre os escombros da própria credibilidade, rindo sozinhos para uma plateia que, a cada dia, sente mais nojo do espetáculo.

O jornalismo morreu. O que sobrou foi isso aí: hienas de blazer, rindo da carne.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *