O Peru vive uma das disputas eleitorais mais tensas de sua história recente. Com 98,2% das urnas apuradas até este sábado (13), a candidata conservadora Keiko Fujimori mantém a liderança na corrida pela presidência do país, mas a vantagem sobre o candidato de esquerda Roberto Sánchez continua extremamente apertada: apenas 651 votos separam os dois concorrentes, numa eleição em que mais de 18 milhões de peruanos foram às urnas no último domingo (7).
Os números traduzem a tensão do momento. Fujimori aparece com 50,002% dos votos válidos, enquanto Sánchez registra 49,998%, segundo dados oficiais do ONPE, o Escritório Nacional de Processos Eleitorais do Peru. A diferença é tão pequena que qualquer lote de votos ainda não contabilizado pode inverter novamente o resultado, como já aconteceu mais de uma vez desde o início da apuração, que se arrasta há seis dias sem um desfecho definitivo.
A movimentação na liderança acompanhou o ritmo da contagem ao longo da semana. Fujimori liderou as pesquisas de boca de urna e a apuração inicial. Sánchez foi ganhando terreno à medida que os votos das regiões rurais, onde o candidato de esquerda tem base mais sólida, foram sendo incorporados. A virada mais recente veio com a entrada dos votos de peruanos residentes no exterior, segmento que favorece amplamente Fujimori, com 63,4% contra 36,5% de Sánchez entre eleitores fora do país.
A demora na apuração tem razões geográficas e logísticas que ajudam a entender por que a contagem se estende por tantos dias. O Peru utiliza o voto impresso, o que exige o envio físico das cédulas para centros específicos de contagem. O território peruano apresenta desafios severos nesse processo: as cédulas de regiões de selva precisam ser transportadas de barco, e em localidades sem estradas o acesso se dá por animais de carga. A combinação de terreno montanhoso, áreas remotas e voto manual torna o processo naturalmente mais lento, e o resultado final ainda pode levar dias para ser proclamado oficialmente pelo ONPE.
Para além do tecnicismo eleitoral, a disputa representa um embate ideológico profundo. Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, carrega a bandeira do conservadorismo e tem forte apoio das camadas urbanas e da diáspora peruana. Roberto Sánchez, candidato da esquerda, conquistou a simpatia das populações rurais e das regiões mais pobres do país. O resultado final definirá não apenas um presidente, mas o rumo político e econômico do Peru nos próximos anos, e o mundo acompanha cada novo lote de votos como se fosse o último.
