Nos últimos anos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, esteve ao menos três vezes no Palácio do Planalto. No entanto, essas visitas não aparecem nas agendas oficiais do governo, o que gerou uma série de questionamentos sobre a transparência das reuniões e dos acessos de figuras próximas ao setor financeiro no coração do poder brasileiro.
Os registros, obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), revelam que Daniel Vorcaro entrou no Planalto nos dias 4 de dezembro de 2023, 1º de março de 2024 e 3 de abril de 2024. Essas entradas foram registradas na portaria do Palácio, mas não constam nas agendas oficiais de Lula ou de qualquer outro ministro. Aparentemente, ele não foi recebido por nenhum membro da cúpula do governo, mas o mistério aumenta quando se considera que o próprio presidente foi informado de reuniões no mesmo período.
Encontro de alto nível em 2024
O episódio mais controverso ocorreu em dezembro de 2024, quando Daniel Vorcaro foi, de fato, recebido por Lula, em uma reunião de cerca de uma hora e meia. O encontro, realizado no gabinete presidencial, contou com a presença do economista e ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que na época atuava como consultor do Banco Master, além do ministro de Minas e Energia, Daniel Silveira, e o atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
Apesar da relevância dos participantes e da reunião no gabinete de Lula, os registros de entrada não mencionam a presença de Vorcaro, o que levanta mais uma interrogação sobre a falta de transparência nas interações entre o governo e o setor financeiro.
O governo se defende: “sem irregularidades”
Após a revelação das entradas e reuniões não registradas, a Secretaria de Comunicação (Secom) do Palácio do Planalto se posicionou. Em nota, o governo afirmou que nem Daniel nem Henrique Vorcaro foram recebidos por Lula ou por ministros nessas ocasiões. O Planalto justificou ainda que, na época das visitas, não havia denúncias de irregularidades contra o Banco Master, o que teria tornado a presença deles “não relevante” nas agendas oficiais.
A nota do governo também mencionou que as irregularidades no Banco Master só se tornaram públicas após investigações da Polícia Federal. O Planalto afirmou que a atuação do governo em relação às investigações demonstra o compromisso com a punibilidade dos responsáveis pela fraude, e qualquer tentativa de “transformar o tema em uma pauta do governo” seria uma tentativa de desviar a atenção da fraude financeira.
O ex-ministro Mantega e a falta de registros
A ausência de registros de entrada do ex-ministro Guido Mantega no Palácio do Planalto também chamou a atenção. Mantega, que atuava como consultor do Banco Master, foi ao Planalto pelo menos quatro vezes em 2024. Essas visitas foram registradas nas agendas de Marco Aurélio Santana Ribeiro, chefe de gabinete de Lula, mas, curiosamente, o nome de Mantega não aparece nos registros de entrada.
A explicação levantada é que Mantega poderia ter evitado o uso da portaria do Planalto, optando por entrar no prédio por outros meios, como a garagem, o que dificultaria o controle formal das entradas. Mesmo assim, a falta de transparência nos registros levanta questões sobre o tratamento dado a figuras influentes do setor financeiro durante o governo.
Falta de clareza e as implicações políticas
O caso dos Vorcaros e de Guido Mantega no Palácio do Planalto expõe uma falta de clareza nas interações entre o governo e os representantes do setor financeiro, especialmente quando a ausência de registros oficiais e a falta de transparência em reuniões de alto nível são notadas. Mesmo que as justificativas do governo apontem para a regularidade das visitas e a ausência de denúncias contra o Banco Master, o fato de múltiplas reuniões e entradas não serem registradas nas agendas oficiais é uma falha de comunicação que gera desconfiança.
Para um governo que busca estreitar laços com a população e demonstrar sua conduta ética, episódios como este não podem ser ignorados sem prejudicar sua credibilidade política. Em tempos de crescente vigilância sobre a atuação de políticos e empresários, a ausência de clareza nos registros do Palácio do Planalto se torna um foco de questionamentos e de críticas, especialmente quando envolvem empresas com histórico de controvérsias financeiras.


