Em um oceano de conformismo onde quase todo o Rio Grande do Norte se deixou engolir pela maré da hegemonia partidária, Parnamirim ergue-se como uma anomalia imperdoável aos olhos da intelligentzia. A repetição de um padrão eleitoral conservador ao longo de sucessivos pleitos não é obra do acaso, mas o reflexo de uma apreensão direta da realidade por parte de uma população que se recusa a substituir a experiência concreta da vida pelas abstrações sufocantes dos engenheiros sociais.
Quando uma cidade inteira diz “não” à tentativa desesperada de reformar a natureza humana por decreto, o que vemos não é um mero desvio estatístico, mas a afirmação categórica da Lei Natural contra a farsa burocrática.
A mentira exige unanimidade; a verdade sobrevive na solidão.
Não é difícil compreender o ódio velado que a mentalidade revolucionária nutre por redutos de independência. Parnamirim, o histórico “Trampolim da Vitória”, construiu-se pelo esforço silencioso de trabalhadores, militares e pequenos comerciantes que sabem perfeitamente que a verdadeira ordem nasce do dever cumprido, da fé e da família, não de promessas redentoras feitas em palanques. O drama dessas eleições recentes lembra a hesitação de Arkádi, o protagonista de O Adolescente de Dostoiévski, imprensado entre a sedução de uma “ideia” de poder absoluto e a dura realidade da responsabilidade moral. Enquanto boa parte do país cedeu à embriaguez das paixões grupais e ao falso conforto do Estado-babá, a cidadela escolheu a retidão da consciência madura, rejeitando o autoengano que transforma cidadãos livres em massa de manobra.
Para os devotos da revolução, a persistência de um legislativo municipal completamente imune à sua militância através das décadas não é um detalhe político, mas uma ofensa pessoal. É a prova viva de que o aparato de hegemonia cultural — que há tempos domina o ensino, as redações e os palcos — esbarra fatalmente na muralha do senso comum e na ordem do real. Contudo, a sobrevivência dessa resistência exige muito mais do que o mero voto instintivo de repulsa. Exige o estudo sério das leis e dos fundamentos da sociedade, a formação robusta do imaginário moral e a coragem de chamar a canalhice pelo seu verdadeiro nome, sem jamais pedir licença aos donos do discurso.
A cidadela está de pé, e o seu veredito nas urnas foi o mais ensurdecedor dos discursos.
Que a vigilância não durma, pois o único preço aceitável pela manutenção da sanidade é a perpétua recusa em se curvar aos ídolos da mentira.
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A Solidão Luminosa de uma Cidade Vigilante
