Um prédio que sobreviveu às duas guerras mundiais não resistiu aos protestos que sacudiram a França neste fim de semana. A sede histórica da prefeitura de Limoges, cidade do centro do país, foi invadida e destruída por um incêndio na noite de sábado (17), durante uma onda de manifestações contra o alto custo de vida e as condições da educação pública que se espalharam por diversas cidades francesas.
O edifício, inaugurado em 1883 e inspirado na prefeitura de Paris, era um monumento tombado e integrava o patrimônio histórico protegido da França. Construído em estilo neorrenascentista, o prédio tinha sua torre central do relógio erguida a 43 metros de altura sobre a praça principal da cidade. Com o incêndio, o telhado desabou sobre os andares inferiores, o campanário ruiu e dois terços das fachadas foram destruídos, segundo relatos das autoridades locais.
O ataque foi planejado e executado por um grupo organizado. Segundo o prefeito de Limoges, Guillaume Guerin, manifestantes encapuzados quebraram janelas, usaram um aríete para derrubar a porta principal do edifício e atearam fogo às instalações, enquanto uma viatura policial era incendiada em frente ao prédio. Centenas de moradores e servidores acompanharam emocionados o trabalho das equipes de bombeiros para conter as chamas.
Guerin, que é de centro-direita, reagiu com indignação ao episódio e criticou duramente a falta de efetivo policial para proteger a prefeitura. Segundo ele, as forças de segurança nacionais haviam sido deslocadas para conter os protestos nas ruas, deixando o edifício histórico desguarnecido. “Eu não tinha um único policial nacional para proteger a prefeitura. Este país vai mal, este país vai muito mal”, declarou o prefeito aos jornalistas. Ele também classificou o ataque como premeditado, afirmando que a organização e a logística por trás da ação foram algo que considera insuportável.
Os episódios de violência não se limitaram a Limoges. O ministro do Interior da França, Laurent Nuñez, confirmou que a onda de depredações se espalhou pelo país, com saques, tentativas de invasão e confrontos registrados em Paris, Lyon, Rouen, Nantes, Toulouse e Marselha. Ao todo, cerca de 400 pessoas foram detidas em território francês ao longo do dia. Os protestos reuniram aproximadamente 550 mil manifestantes em todo o país, sendo 110 mil apenas na capital. O presidente Emmanuel Macron se manifestou nas redes sociais condenando os atos de violência.
Até a noite deste domingo, as autoridades francesas ainda não haviam divulgado a identificação dos suspeitos responsáveis pelo incêndio em Limoges, nem o valor estimado para a reconstrução do edifício histórico. O prefeito da cidade chegou a ameaçar renunciar ao cargo e cobrou recursos do governo nacional para viabilizar a restauração do prédio.
